terça-feira, 27 de agosto de 2013

ANITA PAES BARRETO


Por Jorge Roberto Fragoso Lins *

No dia 3 de junho de 1907, nasce em Recife, Anita Paes Barreto.  Em 1924, com apenas 17 anos de idade é a única de sua turma a ser laureada ao concluir o Curso Normal, recebendo pelo feito uma medalha de ouro. Em 1925, é nomeada professora do Estado e é lotada para trabalhar em Recife, tendo pela frente um grande desafio, ocupar-se da educação de crianças excepcionais. No mesmo ano, Ulysses Pernambucano funda o Instituto de Psicologia e chama Anita para trabalhar com ele. Sob a orientação e supervisão de Ulysses, o Instituto começa a desenvolver estudos psicológicos e tratar de pessoas que se mostravam com os mais variados distúrbios psíquicos.

Em 1927, contando com a colaboração do amigo e mestre Ulysses Pernambucano, Anita publica Estudo Psicotécnico de alguns Testes de Aptidão. Em 1931, como a principal colaboradora de Ulysses, coordena muitas pesquisas que tinha como objetivo a revisão pernambucana do Teste de Binet, Simon, Terman. Os  resultados deste trabalho foram publicados na Revista Neurobiologia, no Jornal de Medicina de Pernambuco e nos Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco.

Em 1935, o Instituto de Psicologia de Pernambuco é extinto. Neste mesmo ano, Ulysses é preso sob acusação de ser comunista e é preso por sessenta dias na Casa de Detenção de Recife. Anita prossegue trabalhando com as crianças excepcionais. Em 1948, ela obtêm o título de licenciatura em pedagogia e começa a lecionar na Faculdade de Filosofia do Recife. Em 1949, com a colaboração de Béla Szekely, da Escola de serviço Social de Pernambuco, cria a Clínica de Conduta que faz parte da mesma faculdade, atuando como primeira psicóloga.

De 1942 a 1957, ela dirige a Escola Aires Gama, atual Hospital Ulisses Pernambucano. Em 1955, com a colaboração de Dilucina Lopes e Maria do Carmo Souto, realiza pesquisa sobre o psicodiagnóstico de Rorschach em Crianças. Os resultados de sua pesquisa foram apresentados na VII Reunião Anual da SBPC. Anita ainda se destacou como docente na Escola de Serviço Social de Pernambuco, na Faculdade de Filosofia do Recife e na Universidade do Recife, hoje, Universidade Federal de Pernambuco.

Anita sempre foi sensível aos problemas sociais que contribuíram para dar um norte à sua atuação como educadora e psicóloga. E foi justamente por ter esta preocupação com o social que Anita fundou e foi diretora da Divisão de Educação do Movimento de Cultura Popular. Na gestão de Miguel Arraes como prefeito do Recife, Anita é assessora da pasta de Educação de seu governo.

Quando Miguel Arraes assume o governo do Estado, Anita é convidada e assume a Secretária de Educação e torna-se, também, presidente da Fundação da Promoção Social. No período de 1988 a 1991, Anita integrou o Conselho Estadual de Educação de Pernambuco. Em 1964, com o golpe militar, Anita é presa como subversiva e em 1997, o Conselho Federal de Psicologia lhe concede uma comenda por sua contribuição ao desenvolvimento da Psicologia como ciência e profissão. De 1988 a 1991, Anita integra o Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, vindo a falecer em 2003.

Pesquisa e texto: Jorge Roberto Fragoso Lins – sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia*.


sábado, 24 de agosto de 2013

ULYSSES PERNAMBUCANO


Por Jorge Roberto Fragoso Lins *

No dia 6 de fevereiro de 1892, nascia no Recife, Ulysses Pernambucano de Melo Sobrinho, filho do senhor José Antônio Gonçalves de Mello, bacharel em Direito, e de Maria da Conceição de Mello, pertencente a uma tradicional e bem sucedida família do Estado. Quanto criança foi alfabetizado pelo pai, continuando os estudos no educandário particular Ginásio Aires Gama, na Rua do Hospício. Sua vocação para medicina logo o fez partir do Recife para estudar no Rio de Janeiro, pois, na época, ainda não existia Faculdade de Medicina no Recife.

Em 1912, com então 20 anos de idade, ao defender a tese sobre algumas manifestações nervosas da Heredo-Sífiles, Ulysses Pernambucano obtêm o diploma de médico, após ter estagiado por dois anos como acadêmico interno do Hospital Nacional de Alienados, sob a supervisão do professor Juliano Moreira. Logo após a formatura retorna para Pernambuco, e escolhe a cidade de Vitória de Santo Antão para abrir o seu consultório. Lá, depara-se com as mais variadas precariedades existentes na cidade e sentidas pela população, obrigando-o a exercer a clinica geral.

Neste período, Ulysses atuou como parteiro, cirurgião, oftalmologista, pediatra e até mesmo dentista. Em 1914, já com sua carreira consolidada, muda-se para o interior do Paraná, onde reside na Cidade de Lapa. No ano seguinte, casa-se com sua prima Albertina Carneiro Leão, com quem teve dois filhos: José Antônio Gonsalves de Mello Neto e Jarbas Pernambucano de Mello. José Antônio forma-se em História e se torna docente da Universidade de Pernambuco e Jarbas segue a carreira do pai e se forma em Medicina. Prestando concurso, Jarbas sucede o pai na cadeira de Clínica Neurológica, mas em 1958 falece prematuramente e sua brilhante carreira é interrompida.

Em 1916, Ulysses volta ao Recife, recheado de experiência como médico do interior. Em 1918, ao ser formalmente criada a cadeira de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal Oficial do Estado e aberto concurso para esta cátedra, Ulysses presta o concurso apresentando a dissertação: “Classificação das crianças anormais. A parada do desenvolvimento intelectual e suas formas; a instabilidade e a astenia mental”.

Foi classificado em primeiro lugar, mas o então Governador do Estado na época, Manoel Borba, por motivos exclusivamente políticos, nomeia o segundo colocado para provimento da cátedra. Ainda no mesmo ano, Ulysses passa no concurso para professor catedrático de Lógica, Psicologia e História da Filosofia, e outra vez é classificado em primeiro lugar, sendo desta vez nomeado pelo Governador para assumir a vaga de professor catedrático do Ginásio Pernambucano, onde anos mais tarde seria Diretor.  

Em 1923, o Governador Sérgio Loreto, nomeia Ulysses Diretor da Escola Normal. Sua gestão foi marcada por reformas de caráter social, como instituir a merenda escolar, o jornal e o exame de seleção para admissão à Escola Normal, obedecendo critérios mais rígidos, dentre outras medidas. Ulysses permaneceu no cargo até 1927. Em 1925, antes da criação do Instituto de Psicologia, Ulysses prepara sua equipe de trabalho e conta entre seus colaboradores com Anita Paes Barreto.

Em 1928, assume a direção do Ginásio Pernambucano e sua técnica metodológica inova a pedagogia da época. Em 1930, ao assumir a direção do Hospital da Tamarineira, Ulysses empreende várias reformas, abolindo o uso da camisa-de-força, choques elétricos e introduz a terapia pelo trabalho (praxiterapia). Praxiterapia é uma técnica psiquiátrica de tratamento que é usada geralmente com pacientes crônicos hospitalizados, e que consiste na utilização terapêutica do trabalho, distribuindo-se tarefas de complexidade crescente; terapia ocupacional entre outros.

Em 1933, é o terceiro médico a presidir o Sindicato dos Médicos de Pernambuco e em 1934, juntamente com seu primo Gilberto Freyre, organiza o Congresso Afro-Brasileiro. Quatro anos depois é nomeado professor Catedrático de Clínica Neurológica e funda a Revista Neurobiologia. Ulysses também foi professor de Química e de Fisiologia.

Na direção do Hospital da Tamarineira tem uma grande decepção em não conseguir implantar o seu projeto chamado Pensão Protegida. Seriam residências onde um grupo de no máximo quatro doentes mentais morariam juntos e seriam acompanhados por um administrador. Neste mesmo ano pede demissão do cargo e em 1935 é preso sob acusação de ser comunista, permanecendo sessenta dias, confinado na Casa de Detenção de Recife. Ao ser solto teve de se exilar no Rio janeiro, onde faleceu no dia 05 de Dezembro de 1943, aos 51 anos de idade, vítima de um enfarto fulminante, mas, sobretudo, vítima de um período negro que manchou a história do povo brasileiro.

Pesquisa e texto: * Jorge Roberto Fragoso Lins – sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.