Por Jorge Roberto Fragoso Lins *
No
dia 6 de fevereiro de 1892, nascia no Recife, Ulysses Pernambucano de
Melo Sobrinho, filho do senhor José Antônio Gonçalves de Mello, bacharel em
Direito, e de Maria da Conceição de Mello, pertencente a uma tradicional e bem
sucedida família do Estado. Quanto criança foi alfabetizado pelo pai,
continuando os estudos no educandário particular Ginásio Aires Gama, na Rua do
Hospício. Sua vocação para medicina logo o fez partir do Recife para estudar no
Rio de Janeiro, pois, na época, ainda não existia Faculdade de Medicina no
Recife.
Em 1912, com então 20 anos
de idade, ao defender a tese sobre algumas manifestações nervosas da
Heredo-Sífiles, Ulysses Pernambucano obtêm o diploma de médico, após ter estagiado
por dois anos como acadêmico interno do Hospital Nacional de Alienados, sob a
supervisão do professor Juliano Moreira. Logo após a formatura retorna para
Pernambuco, e escolhe a cidade de Vitória de Santo Antão para abrir o seu
consultório. Lá, depara-se com as mais variadas precariedades existentes na cidade
e sentidas pela população, obrigando-o a exercer a clinica geral.
Neste período, Ulysses atuou
como parteiro, cirurgião, oftalmologista, pediatra e até mesmo dentista. Em
1914, já com sua carreira consolidada, muda-se para o interior do Paraná, onde reside
na Cidade de Lapa. No ano seguinte, casa-se com sua prima Albertina Carneiro
Leão, com quem teve dois filhos: José Antônio Gonsalves de Mello Neto e Jarbas
Pernambucano de Mello. José Antônio forma-se em História e se torna docente da
Universidade de Pernambuco e Jarbas segue a carreira do pai e se forma em
Medicina. Prestando concurso, Jarbas sucede o pai na cadeira de Clínica
Neurológica, mas em 1958 falece prematuramente e sua brilhante carreira é
interrompida.
Em 1916, Ulysses volta ao
Recife, recheado de experiência como médico do interior. Em 1918, ao ser
formalmente criada a cadeira de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal Oficial
do Estado e aberto concurso para esta cátedra, Ulysses presta o concurso apresentando
a dissertação: “Classificação das crianças anormais.
A parada do desenvolvimento intelectual e suas formas; a instabilidade e a
astenia mental”.
Foi classificado
em primeiro lugar, mas o então Governador do Estado na época, Manoel Borba, por
motivos exclusivamente políticos, nomeia o segundo colocado para provimento da
cátedra. Ainda no mesmo ano, Ulysses passa no concurso para professor
catedrático de Lógica, Psicologia e História da Filosofia, e outra vez é
classificado em primeiro lugar, sendo desta vez nomeado pelo Governador para assumir
a vaga de professor catedrático do Ginásio Pernambucano, onde anos mais tarde
seria Diretor.
Em 1923, o
Governador Sérgio Loreto, nomeia Ulysses Diretor da Escola Normal. Sua gestão
foi marcada por reformas de caráter social, como instituir a merenda escolar, o
jornal e o exame de seleção para admissão à Escola Normal, obedecendo critérios
mais rígidos, dentre outras medidas. Ulysses permaneceu no cargo até 1927. Em
1925, antes da criação do Instituto de Psicologia, Ulysses prepara sua equipe
de trabalho e conta entre seus colaboradores com Anita Paes Barreto.
Em 1928, assume
a direção do Ginásio Pernambucano e sua técnica metodológica inova a pedagogia
da época. Em 1930, ao assumir a direção do Hospital da Tamarineira, Ulysses
empreende várias reformas, abolindo o uso da camisa-de-força,
choques elétricos e introduz a terapia pelo trabalho (praxiterapia). Praxiterapia é uma técnica
psiquiátrica de tratamento que é usada geralmente com pacientes crônicos
hospitalizados, e que consiste na utilização terapêutica do trabalho,
distribuindo-se tarefas de complexidade crescente; terapia ocupacional entre
outros.
Em 1933, é o terceiro médico
a presidir o Sindicato dos Médicos de Pernambuco e em 1934, juntamente com seu
primo Gilberto Freyre, organiza o Congresso Afro-Brasileiro. Quatro anos depois
é nomeado professor Catedrático de Clínica Neurológica e funda a Revista
Neurobiologia. Ulysses também foi professor de Química e de Fisiologia.
Na direção do Hospital da
Tamarineira tem uma grande decepção em não conseguir implantar o seu projeto
chamado Pensão Protegida. Seriam residências onde um grupo de no máximo quatro
doentes mentais morariam juntos e seriam acompanhados por um administrador. Neste
mesmo ano pede demissão do cargo e em 1935 é preso sob acusação de ser
comunista, permanecendo sessenta dias, confinado na Casa de Detenção de Recife.
Ao ser solto teve de se exilar no Rio janeiro, onde faleceu no dia 05 de
Dezembro de 1943, aos 51 anos de idade, vítima de um enfarto fulminante, mas,
sobretudo, vítima de um período negro que manchou a história do povo
brasileiro.
Pesquisa e texto: * Jorge Roberto Fragoso
Lins – sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e
graduando do 8º período de psicologia.

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